quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O dia em que chorei contando histórias

Guilherme Augusto Araújo Fernandes

Guarde este nome que já vou chegar nele.
Um dia, fui ler uma história para a turma e escolhi um livro qualquer. Julguei pela capa, é verdade (crianças, não façam isso, ok?). Eles pediram tanto para contar uma história que fui na biblioteca, peguei um livro aleatório e voltei pra sala.
O livro era tão bonitinho. Os desenhos não eram lá tão elaborados, mas eram fofinhos.


Então, lá fui eu. Sentamos, cantamos a musiquinha do silêncio e a professora começou a contar a história do Guilherme Augusto Araújo Fernandes.

"Era uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era tão velho assim.

Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
Ele gostava da Sra. Silvano que tocava piano.
Ele ouvia as histórias arrepiantes que lhe contava o Sr. Cervantes.
Ele brincava com o Sr. Valdemar que adorava remar.
Ajudava a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
E admirava o Sr. Possante que tinha voz de gigante.

Mas a pessoa que ele mais gostava era a Sra. Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela também tinha quatro nomes, como ele."

Pô, bonitinho, né. As crianças estão se amarrando. Legal! Vambora continuar.

" Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.

Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
- Coitada da velhinha - disse sua mãe.
- Por que ela é coitada? - perguntou Guilherme Augusto.
- Porque ela perdeu a memória - respondeu seu pai.
- Também, não é para menos - disse sua mãe. - Afinal, ela já tem noventa e seis anos.
- O que é memória? - perguntou Guilherme Augusto.
Ele vivia fazendo perguntas.
- É algo de que você se lembre - respondeu o pai."

Bah... logo uma história sobre velhinhos com Alzheimer, logo quando estou vendo minha vóvs triste por estar perdendo a memória dela.. Mas vambora. As crianças ficarem quietas com uma história é realmente um milagre, então deixa eu terminar.

"Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então, ele procurou a Sra. Silvano que tocava piano.

- O que é memória? - perguntou.
- Algo quente, meu filho, algo quente.
Ele procurou o Sr. Cervantes que lhe contava histórias arrepiantes.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo.
Ele procurou o Sr. Valdemar que adorava remar.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar.
Ele procurou a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir.
Ele procurou o Sr. Possante que tinha voz de gigante.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro."

E foi então que a professora maluquinha aqui começou a sentir algo estranho... Tipo uma emoção mais forte, sabe?

"Então Guilherme Augusto voltou para casa, para procurar memórias para Dona Antônia, já que ela havia perdido as suas.

Ele procurou uma antiga caixa de sapatos cheia de conchas, guardadas há muito tempo, e colocou-as com cuidado numa cesta.
Ele achou a marionete, que sempre fizera todo mundo rir, e colocou-a na cesta também.
Ele lembrou-se, com tristeza, da medalha que seu avô lhe tinha dado e colocou-a delicadamente ao lado das conchas.
Depois achou sua bola de futebol, que para ele valia ouro; por fim, entrou no galinheiro e pegou um ovo fresquinho, ainda quente, debaixo da galinha."

E já tinham lágrimas nos meus olhos, mas ainda davam pra disfarçar. As crianças já me olhavam meio de lado, como que pensando que a professora era perturbada, mas eles não tinham muita certeza disso.


"Aí, Guilherme Augusto foi visitar Dona Antônia e deu a ela, uma por uma, cada coisa de sua cesta.
Que criança adorável que me traz essas coisas maravilhosas", pensou Dona Antônia.
E então ela começou a se lembrar.
Ela segurou o ovo ainda quente e contou a Guilherme Augusto sobre um ovinho azul, todo pintado, que havia encontrado uma vez, dentro de um ninho, no jardim da casa de sua tia.
Ela encostou uma das conchas em seu ouvido e lembrou da vez que tinha ido à praia de bonde, há muito tempo, e como sentira calor com suas botas de amarrar.
Ela pegou a medalha e lembrou, com tristeza, de seu irmão mais velho, que havia ido para guerra e que nunca voltou.
Ela sorriu para a marionete e lembrou da vez em que mostrara uma para sua irmãzinha, que rira às gargalhadas, com a boca cheia de mingau.
Ela jogou a bola de futebol para Guilherme Augusto e lembrou do dia em que se conheceram e de todos os segredos que haviam compartilhado.
E os dois sorriram e sorriram, pois toda a memória perdida de Dona Antônia tinha sido encontrada, por um menino que nem era tão velho assim."

E não deu mais pra me conter. Eu chorei. Claro que não sentei no chão e banquei o bezerro desmamado. Mas as lágrimas furtivas acharam de sair com mais volume, e tive que parar num momento ou outro pra secar os olhos, porque estava difícil enxergar. E as crianças me olhando com uma cara estranha, preocupadas porque a tia tava chorando.

Ah, gente, é que eu finjo que não, mas sou emotiva pra caramba. Nem vou dar crédito para a TPM dessa vez. Mas é que velhinhos e crianças mexem comigo de uma forma que vcs não imaginam. Além disso, minha vóvs fofa-linda-querida-amada-salve-salve tá sofrendo disso, meu pai já tem sintomas, então sei como é ver alguém que você ama deixar de ser ela. E ler uma coisa tão fofa, tão delicada assim sobre isso me deixou mole.

É, eu chorei na frente dos meus alunos e estou contando isso publicamente.
Aproveitem, porque, vocês sabem, não é sempre que mostro meu lado frágil por aqui.


Fonte:

FOX, Mem. Guilherme Augusto Araújo Fernandes. São Paulo: Brinque-Book, 1984

3 pitacos:

Pandora disse...

Eu nem preciso de tpm pra chorar, conheço esse livro, ele é lindo... sempre me emocionou quando leio essa história... É linda!!! Chorar faz bem, contar no blog também, é nosso jeito de preservar a memória!!!

... disse...

E eu chorei com seu relato...ver quem a gente ama sofrer deveria ser algo proibido. Mas a vida coloca esses percalços e à gente só resta ir....

Um beijo, ruiva. Saudade imensa dos seus escritos.

www.dignidadenaocabeaqui.blogspot.com

Simony disse...

Lindo! essas criancas tem sorte de terem uma tia tao sensivel como voce.
Que bom que voce trabalha com criancas, sei como e, tambem ja fui professora de pequenos.

 

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